Nigerianos precisam superar cenário de corrupção, violência e desigualdade, avaliam especialistas

Passados quatro meses da eleição de Muhamamadu Buhari, estudiosos analisam o cenário político, social e econômico no país. Para analistas, a forma como o Estado e os recursos são geridos pela elite política nigeriana precisam ser revistos

Gabriel Ferreira, Letícia Luchesi e Lucas Galante

Se por um lado a Nigéria tem uma das economias mais pujantes do continente africano, por outro o país é marcado por instabilidades no campo político e social. Nas últimas eleições presidenciais, realizadas em março de 2019, 39 pessoas morreram, segundo o grupo de organizações da sociedade civil, Situation Room .

O resultado foi a reeleição de Muhamamadu Buhari, do partido All Progressives Congress (APC). De acordo com Antony Goldman, jornalista da BBC e consultor de política sobre a Nigéria, Buhari teve um desempenho melhor do que afirmavam os jornais do país, e isso se deveu ao seu discurso anticorrupção e à simpatia que ele possui junto a setores mais populares. “Pela mesma razão, ele é impopular com os setores da elite política e econômica da Nigéria”, complementa o especialista.

Para Teresa Cierco, professora de Relações Internacionais na Universidade do Porto, em Portugal e também estudiosa da Nigéria, a corrupção, ao lado da condição de extrema pobreza, irregularidades eleitorais e grave recessão econômica, é um dos principais desafios a serem enfrentados pelos nigerianos. Teresa destaca que a Nigéria é uma criação artificial do Estado e um produto do colonialismo. Uma nação formada de maneira forçada, com grupos diferentes tendo que se relacionar no mesmo território. “O país é composto por várias tribos que se relacionam de forma violenta. O conflito étnico e religioso sempre esteve presente, principalmente entre os cristãos e muçulmanos”, complementa a pesquisadora.

O grupo terrorista Boko Haram, atuante na região norte do país, é uma grande ameaça, em decorrência de suas ações violentas, frutos do fundamentalismo religioso. O grupo segue a sharia (lei islâmica) de forma radical, com o objetivo de combater a influência ocidental no país. O combate ao Boko Haram feito pelo governo da Nigéria vem gerando mais violência, de acordo com a especialista em Relações Internacionais. Teresa relaciona o governo nigeriano com a ação de grupos de policiais milicianos, que abusam do poder no combate ao grupo terrorista. “Ao tentar fazer frente ao grupo, o exército acaba provocando mais vítimas do que o próprio grupo”, ela afirma.

Argumentando sobre as eleições, Teresa ressalta que, apesar de haver 73 candidatos, a votação centrou-se apenas entre Muhammadu Buhari e Atiku Abubakar, do partido PDP. A presença de tantos candidatos deve-se, dentre outras razões, à existência de mais de 250 grupos etnolinguísticos e à fragmentação da sociedade civil. O processo eleitoral resultou do confronto entre duas comunidades: cristãos e muçulmanos Fulani. Ambos competem por terra e água.

Em relação ao resultado da reeleição de Buhari, o nigeriano Principe Ike Nwaturuocha afirma que o processo eleitoral foi fraudulento, visto que o presidente não teria sido eleito pela massa, e teria usado sua influência como ex-chefe do Estado Militar. “O cenário político na Nigéria é pior do que antes.  O país se encontra estagnado desde a posse de Buhari”, critica. Nwaturocha ainda conta que a Nigéria tem “o maior caso de corrupção do mundo”: Aqui você vê políticos carregando sacolas cheias de dinheiro. Além de armazená-los em tanques, casas escondidas e armazéns de fazenda”.

No campo econômico, o petróleo é o grande diferencial de crescimento do país, mas não é eficaz para resolver todos os problemas, visto que a desigualdade e a corrupção prevalecem.

“O único meio de mudança é rever a forma de como o Estado e os recursos são gerados pela elite política”, ressalta Teresa. Goldman conclui, avalizando a opinião da professora, com a pergunta: “Até que ponto as pessoas da elite nigeriana querem realmente mudar essa situação?”

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